[ 06 de Setembro de 2004 ]

ERA UMA VEZ UM CLUBE E A SUA CLAQUE

por Miguel Saial

Daqui a um mês terá passado exactamente um ano sobre a grande jornada que foi a invasão pedestre a Faro.

O que emocionou alguns na altura parece estar, hoje, esquecido. A famosa "excursão a pé" foi, e isso até pode ser apenas a minha opinião, um dos momentos fundamentais - senão o primeiro sinal - que 2003/04 seria a época determinante para o regresso do nosso clube a um patamar mais digno do seu historial.

Estávamos apenas na sétima jornada, recorde-se. Não era somente uma euforia momentânea de liderança da tabela classificativa, mas uma enorme demonstração de mobilização de uma massa adepta que há muito aguardava a elevação do emblema rubro-negro ao seu valor real.

E a verdade é que este "Olhanense" tem uma estranha forma de estar, relativamente aos seus sócios. Por vezes parece que é o clube que faz um favor ao deixar alguém ser seu associado. Já era um pouco assim na 2.ª Divisão "B", e que raio de ingenuidade a minha em pensar que seria diferente na Liga de Honra. Depois ouvimos as queixas de que as pessoas afastam-se do clube. "Ninguém ajuda o Olhanense", gostam de repetir.

No parágrafo anterior coloquei aspas ao referir-me ao nome do clube. É que este "Olhanense" a que me refiro é o "Olhanense" das pessoas que neste momento o representam, não o Olhanense do passado, nem o do futuro. Toda a gente sabe, os clubes ficam e as pessoas… vão à sua vida, tal como eu um dia arranjarei outras coisas com que me entreter, farto de aturar comportamentos ultrapassados e psicologias invertidas. Por enquanto tento não confundir o emblema com essas atitudes, ou acreditar que uma subida de escalão traria alguma abertura de mentalidade e menos prepotência. Mas não. Ninguém ajuda.

Fala-se em eleições antecipadas, mas não creio que uma mera alteração de lugares directivos resolva o problema. A estrutura profissional e funcional teria de ser revista e renovada. O jogo com o Salgueiros na época passada para a Taça de Portugal (o único com alguma exigência maior) e a ronda inaugural deste ano demonstraram isso. Tempos houve em que acreditei em evolução na continuidade, mas o estado de graça "imaginário" causado pela subida de escalão, para mim, acabou com esta vitória sobre o Portimonense.

Tento acompanhar o clube com sentido crítico, e não me considero um simples "bota-abaixo", antes pelo contrário. Mas há limites. Desde o final da época passada, após a subida consumada, tinha em mente escrever um artigo deste tipo, sobre a passagem aos campeonatos profissionais, mas entretanto passaram-se os meses e não encontrei a paciência ou… o ângulo de abordagem. Mas agora achei-o, e logo numa questão aparentemente "menor": a claque de apoio. Uma questão menor mas muito mais demonstrativa sobre o funcionamento deste clube do que pode, à primeira vista, parecer.

A claque e a massa adepta do Olhanense (sem aspas) foi, em opinião geral, um dos incentivos para a subida de escalão. Não falo sequer de uma claque nos moldes dos grandes clubes ou como as claques "oficiais" que a Liga exige. Falo da claque pouco organizada, que não pede bilhetes nem apoios ao clube, ou autocarros para as deslocações. Paga mesmo tudo do seu bolso. O mesmo grupo de apoio que vestiu a cidade com centenas de t-shirts com um slogan tão apelativo que o clube já nem o renega e até pensa (e bem!) utilizar em iniciativas diversas.

Uma simples frase que, apesar de tão "batida", ainda conseguiu a proeza(?) de surpreender o Presidente da Câmara no dia da festa da subida. Mais um grande momento da tragi-comédia que é a letargia em que esta cidade parece estar eternamente adormecida. Por trás de cerimónias formais, os fatos e as gravatas dizem preocupar-se, mas a verdade é que todos os fins-de-semana as "docas" são o que são. E não acredito que seja assim tão difícil resolver estes assuntos. Mas, tal como no "Olhanense", a culpa é sempre das "pessoas", nunca dos que detêm cargos. As pessoas é que não ajudam.

Ora bem, após a subida do Olhanense (sem aspas) e após o "Euro 2004", surge na nossa mui nobre Cidade da Restauração o grande evento que é o Festival do Marisco. Como habitualmente, o Sporting Clube Olhanense teve o seu stand. Nesse espaço o clube comercializou material alusivo ao clube, o tradicional merchandising, e desta vez também material da claque.

Esse material da claque surgiu à venda no stand depois de uma solicitação do clube à claque. Sim, leram bem, o clube é que solicitou à claque. Bonito, não? Afinal, por vezes as pessoas ajudam.

Alguns dias depois tem início o campeonato nacional da II Liga de Honra. No dia do primeiro jogo, minutos antes, quando os elementos da claque (associados com quotas em dia, e não "borlistas") tentavam entrar com as faixas e bandeiras foram informados que «O Olhanense não tem claque.»

No dia da primeira jornada da época 2004/05, o clube que se sagrou campeão da Zona Sul da 2.ª "B", já não tinha claque. O material da mesma claque que, no entanto, já tinha sido vendido pelo próprio clube no Festival do Marisco e no jogo de apresentação do Domingo anterior, frente ao Vitória de Setúbal. Bonito.

Não vou sequer perder tempo a tentar imaginar ou perceber o que motiva este tipo de atitudes. A claque é composta por jovens (alguns deles mesmo muito jovens) que têm vontade de apoiar o clube, por gosto. Não são como alguns agentes do futebol, por vezes movidos por interesses "variados".

O que se passa é que, neste momento, praticamente toda a gente já percebeu como funciona este "Olhanense". Talvez por isso, apesar da subida de Divisão, o crescimento do número de associados não tenha sido nada significativo. Depois queixam-se. A culpa é, sempre, das pessoas. Não ajudam.

O mais cómico é que não há, sequer, um todo para culpar. Não há um pensamento ou comportamento único neste "Olhanense". Por vezes parece não haver ligação entre as estruturas e a hierarquia do clube. O episódio das declarações de Paulo Sérgio a "O Jogo" pode até muito bem ser um mal-entendido, mas deixa fumo no ar. A recente entrevista de um vice-presidente sugerindo eleições antecipadas ainda mais.

E esta questão da claque, que existe no clube para vender material mas que depois já não existe no primeiro jogo da época é mais do que demonstrativo de como funciona este "nosso" clube. É quase anedótico. Se a claque é coisa de míudos, então o que dizer do funcionamento do clube?

E talvez essa partida com o Portimonense até tivesse sido uma boa altura para trocar opiniões com dirigentes de outros emblemas sobre como funcionam os clubes que "têm claque". Se se chama "ter claque" o clube disponibilizar autocarros e bilhetes, então o Olhanense não tem MESMO claque. Resta saber é o que é que o "Olhanense" quer. Se é que sabe.

Felizmente(?), a questão de haver ou não claque no jogo da primeira jornada foi resolvida por um Dirigente que sempre demonstrou apoio à claque. Quanto a mim, esta questão é quase rídicula, mas é apenas o espelho de tudo neste "Olhanense". E é exactamente o mesmo que a subida de Divisão na época passada: há pessoas dentro do clube a favor, e outras contra.

Tão simples quanto isso.

Quanto a nós, desde que começámos a fazer este site não oficial há dois anos (e, recorde-se, numa fase má da vida do clube, após a derrocada da sede e da quase descida à III Divisão) tem havido da nossa parte alguma colaboração com o clube e com a claque. Com gosto da nossa parte, pois normalmente não olhamos a pessoas, mas apenas ao apoio ao clube. Este parece ser um conceito desconhecido para muitos. Mas, apesar de nem tudo terem sido rosas, essa colaboração deu-nos muito mais alegrias que tristezas, e isso é que é importante. Só que tudo isto torna-se por vezes tão infantilmente frustrante, que tem de ter um fim.

Eu, pessoalmente, já decidi. Estou farto de malucagens. Relativamente à claque e ao clube, vou cessar a minha colaboração "activa" com ambos. Tenho mais em que perder o meu tempo. Se quem é pago ou eleito para fazer o seu trabalho não o faz como deve ser feito, porque é que terei de preocupar-me com isso ou AJUDAR quem quer que seja?

Continuarei, claro, a fazer este "livro de recortes", juntamente com os amigos com quem até hoje tenho vindo a fazer. E a ir à bola. Mas não mais do que isso. Vou juntar-me às pessoas que nunca ajudam (a maioria).

Mesmo em relação ao site, pode dizer-se que actualmente já nem faz grande sentido um site que vá procurar o comentário ao jogo nos Açores, Odivelas ou Mafra, visto que os principais jornais publicam sempre artigos e entrevistas sobre as partidas da Liga de Honra. Óptimo. Menos "trabalho" para nós. É que, com a subida de divisão, o Olhanense atingiu o estatuto em que a própria imprensa é "obrigada", cada vez mais, a relatar tudo o que se passa. 

E o "Olhanense" terá de aprender a viver com isso.











 

 

 

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