[ 07 de Agosto de 2003 ]

PADINHA OU JOSÉ ARCANJO?

por Miguel Saial
Em mensagem no nosso Fórum, Miguel Ferreira, membro da actual Direcção do clube, colocou para discussão dos participantes a "velha" questão do regresso ao Padinha, colocada quase fora de hipóteses (?) aquando do surgimento de outra alternativa também bastante apetecível: a aproximação das bancadas ao relvado no José Arcanjo. Segundo o mesmo dirigente, esta última, ao que parece, afinal não tem grande viabilidade, apesar de não a colocar completamente fora de hipótese.

Ora bem, estou certo que o regresso ao Padinha é o desejo de muitos adeptos rubro-negros, especialmente da “velha guarda”. Confesso que, há um par de anos, quando ouvi falar pela primeira vez nisso, fiquei bastante entusiasmado. Não só pelo clube, mas também pela cidade, pois esse regresso ao Padinha, dizia-se, só seria possível com a “municipalização” do José Arcanjo. De grosso modo, penso que o que chegou a vir nos jornais foi que a Autarquia comprava o Arcanjo (“limpando” as dívidas do clube) para fazer naquela zona um imenso Complexo Desportivo, pois já lá estão até as piscinas. Ficavam todos felizes, mesmo os mais reticentes, pois é inegável que o período de menor sucesso do futebol rubro-negro (os números e factos falam por si), é aquele em que a equipa jogou no José Arcanjo.

Agora, uma “coisinha”… com a recente venda dos terrenos anexos, isso ainda será possível? Ou venderia o clube todo a área do Arcanjo para construção urbanística e passaria a jogar no novo Padinha? Esse tipo de decisão não pode ser tomada, simplesmente, por uma Direcção, por mais abrangente que ela seja em termos de nomes e "sectores", como é a actual. Será sempre algo a colocar como proposta numa Assembleia, e não pode ser feito “à la SAD”. A acontecer isso, desta vez tem de ser TUDO muito bem explicado, para os sócios decidirem com a cabeça e não com o coração ou simpatia facial. Os associados são quem decide, independentemente de quem estiver à frente dos órgãos sociais já ter feito muito ou pouco pelo clube. Não se pode confundir as coisas. De saudar, portanto, o aparecimento de um dirigente interessado em auscultar as opiniões dos adeptos.

Têm de ser feitos também alguns esclarecimentos, e nesse aspecto o nosso site poderá ter uma palavra a dizer, pois em breve publicaremos o “Diário da Construção do José Arcanjo”, que nos foram fornecidos pelo autor. Trata-se de uma colecção de textos já publicada no jornal do clube, mas que poderão já estar esquecidos, ou não ser do conhecimento dos adeptos mais jovens ou, simplesmente, ter passado ao lado dos que não lêem o quinzenário rubro-negro. A verdade é que grande parte das pessoas desconhece que a cedência do terreno por parte da família Arcanjo foi feita mediante acordos de que os mesmos seriam sempre para instalações com vista à prática desportiva, e talvez esses acordos “legalmente” não existam (não sei, sinceramente se existem ou não, estou apenas a colocar a hipótese), mas a palavras dos homens tem de ser respeitada, especialmente nestes casos.

Aliás, a própria construção do José Arcanjo esteve envolta em alguma polémica, parece-me até que foi mais uma obra de um grupo de associados contra a vontade de outros, ou pelo menos contra a vontade da indiferença. O actual recinto de jogos do clube foi construído um pouco à margem da direcção da altura, pois pouca gente "ligou" ao projecto. Houve mesmo alguma descrença popular e a obra esteve mesmo parada durante muito tempo, mormente após o 25 de Abril, só sendo inaugurado uma década mais tarde. Pelo que me foi dado a conhecer, fiquei com a impressão que em meados da década de setenta a cidade começou a dissociar-se um pouco do clube (num entrevista ao nosso site Ademir Vieira aludia a isso, referindo-se à última época na I Divisão), primeiro com a descida do escalão maior e, depois, para a terceira Divisão, já no início da década de oitenta. O Estádio José Arcanjo surge nessa altura, portanto acredito que muita gente visse com bons olhos um regresso a um Padinha remodelado mas com o “espírito” antigo.

Contudo, seria no mínimo “bonito” que, pelo menos, as coisas fossem explicadas, e não se passasse por cima da História do clube, e quando me refiro a História não são apenas os troféus e resultados, mas as palavras dos homens que para ela contribuíram. Temos que nos acautelar para não corremos sequer o risco de passar por uma situação semelhante à dos nossos vizinhos do lado, onde parece que engodaram uns Espanhóis com um Estádio que nunca passou para o nome do clube (e acredito até que havia responsáveis do mesmo clube que nem soubessem disso) que, como tal, nunca passou para propriedade da SAD. Posto isto, pediram o seu dinheirinho de volta e para a sua terra regressaram.

Agora, os nossos vizinhos estão como estão. Porquê? Porque por muito dinheiro que se invista num clube, há uma coisa que simplesmente não se pode “ganhar” (quase escrevi “comprar”...), que é o tão banalmente falado "amor à camisola". Sem dinheiro não se compra nada, mas o dinheiro não compra tudo. O futebol, por muito que evolua num sentido empresarial e mercantilista, nunca poderá descorar as suas origens, pois foram elas que lhe deram a projecção e identidade que tem hoje.

O melhor (ou pior...) exemplo disto está a menos de 10 Km.
   
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