[ 27 de Março de 2005 ]

 

in "O Jogo" (www.ojogo.pt)

Na pequenez dos seus dez anos, Cristian Ponde já cumpriu um sonho ao alcance de poucos: tornar-se jogador do Sporting.

De origem romena, o craque de palmo e meio despontou em Olhão e fez "birra" para resistir a um mar de pressões externas, "desviantes" e que também afectaram a sua família.

Com o sentido de vestir a camisola verde e branca de Alvalade, "obrigou" o clube algarvio a "ignorar" pretendentes como Benfica, Belenenses e até o poderoso Chelsea - do magnata Roman Abramovich.

Tudo isto num processo demasiado adulto...

Por FILIPE ALEXANDRE DIAS

Menino-prodígio chorou para ser "leão"

Na idade dos contos, Cristian Ponde ouve ovações. Aos dez anos, o romeno passou de mais recente atracção do futebol jovem do Olhanense a mais uma esperança do Sporting. Após uma corrida louca pelo seu concurso, o petiz preencheu finalmente a ficha de inscrição no clube de Alvalade, depois de tudo estar devidamente acertado entre os emblemas e a família do pequeno artista. O JOGO testemunhou o acordo anteontem celebrado num restaurante em Santa Catarina (Olhão), e relata o desenrolar de uma história demasiado adulta para uma criança, mas que terminou de forma feliz: a vontade do garoto em jogar de leão ao peito prevaleceu.

Filho de imigrantes romenos, Cristian está em Portugal há dois anos. A fácil relação mantida entre o pequeno e a bola não passou despercebida aos olhos do pai, Constantin Ponde, homem de origens humildes que o impediram de futebolista se tornar, não passando de um emblema sem expressão da III divisão romena. Nas escolas do Olhanense, a "pinta" do miúdo não enganou ninguém e a palavra espalhou-se com a rapidez de um relâmpago: um puto-maravilha fazia coisas de gente grande nos campos Padinha e José Arcanjo, emblemáticos redutos do popular emblema do Sul.


Luta até com Chelsea acabou em lágrimas
O Sporting colocou-se na dianteira, procedendo à primeira de muitas observações das qualidades do rubro-negro, da responsabilidade de Edgar Jacques, coordenador dos olheiros verde e brancos na província. De súbito, os rivais lisboetas Benfica e Belenenses entraram em cena, acenando com propostas tentadoras (ver mais informação na página seguinte). Porém, o sinal de alarme só ecoou quando o Chelsea - esse mesmo, o do magnata Roman Abramovich... - enviou um seu emissário, Ferreirinha, ao José Arcanjo.

O cerco apertou-se à porta de casa da família Ponde, em Santa Catarina, mas Cristian, com a face borbulhando lágrimas, disse de sua justiça: "Quero o Sporting." Após dois meses insanos, repletos de abordagens várias, promessas de uma vida melhor fora do Algarve, telefonemas de estranhos apresentando cenários fantásticos (ver mais informação na página seguinte) a virar a modesta casa do avesso, os "leões" conseguiram levar a melhor, para contentamento de Ponde.


Integração na Academia em 2006
Cristian Ponde só poderá ser totalmente integrado no Sporting quando atingir o escalão infantil. Preocupado em não perturbar a estabilidade emocional da família, o Departamento de Recrutamento "leonino", liderado por Aurélio Pereira, traçou um plano para o jovem talento, de maneira a que, na próxima época, Cristian Ponde tenha o melhor de dois mundos. O prometedor médio apresenta-se brevemente no Centro de Futebol do Sporting, mas continuará em Olhão, junto de seus pais. "Cris" seguirá a vida tranquila dos dois últimos anos, treinando-se e jogando no Olhanense, participando em torneios pelo Sporting, sempre que os algarvios não estejam em competição. Só em 2006/07 deverá Cristian ser incorporado nos "leões". Sem sair do seu ambiente, o romeno adaptar-se-á progressivamente a um outro, sem rupturas susceptíveis de colocar em causa o seu futuro desportivo.

Além do desejo de "Cris", as infra-estruturas do emblema sportinguista foram vitais na decisão dos pais. Duas visitas à Academia e uma deslocação ao Estádio José Alvalade, para assistir ao Sporting-Feyenoord, foram suficientes para convencer os pais de Ponde, cujo passado de dor e sacrifício está cada vez mais próximo de ser substituído por um futuro radioso. O presente não podia ser melhor. O filho de Constantin e Crina está radiante por jogar no clube que lhe roubou o coração, num país que é cada vez mais o seu. Se sonhar é algo que precioso, Cristian tem direito a fazê-lo mais do que ninguém em seu redor. Não por ter talento, mas por uma razão bem mais simples e bela: é uma criança.
 

Cristian Ponde:
"Gostava de ser como Ronaldinho"

Cristian a tudo parece indiferente. Deslizando numa gargalhada - como a irmã no escorrega do parque de diversões ou ele próprio a jogar nos estádios Padinha e José Arcanjo para supremo espanto da plateia -, o puto-maravilha de Olhão mostra um espírito viçoso, bem patente no brilho do seu olhar, falando com avidez das suas paixões. Falar é com ele...

Acabaste de assinar a tua ficha de inscrição pelo Sporting. Estás contente?
Sim. Era aquilo que eu queria e o meu pai aceitou. Desde que cheguei a Portugal que fiquei a gostar do Sporting. Foi bom.

Qual é o teu jogador preferido na equipa?
Gosto muito do Niculae. Já somos amigos. Fui à Academia uma vez para o visitar, mas ele estava doente. Depois encontrámo-nos lá em Alcochete e ele foi muito simpático comigo.

E não tens outro jogador de que gostes?
O Rochemback. Joga onde eu gosto de jogar, no meio-campo. Dos estrangeiros também gosto do Ronaldinho. É muito rápido e chuta com força e pontaria. Gostava de ser como ele.

Já foste ao Estádio José Alvalade ver um jogo. Imaginaste-te a jogar lá um dia mais tarde?
Gostava, mas não sei...
 

"Sou o melhor a Matemática"

E na escola, tens-te portado bem?
Sim, tenho lá muitos amigos. Gosto de muito de Matemática. Sou o melhor da sala a fazer contas.

O que gostas de fazer quando não estás na escola ou a jogar futebol?
Jogar Pro Evolution Soccer 4, mas, para isso, tenho de ir a casa de um amigo meu. Só tenho a Playstation One...
 

Rui Lúcio:
"Tem tudo para ser grande"

O técnico das "escolinhas" do Olhanense foi quem recebeu Cristian há pouco menos de um ano. Aos primeiros toques na bola, Rui Lúcio ficou sem dúvidas acerca do dom de "Cris", momentos que aqui recorda. "O Cristian tinha ido ao Marítimo Olhanense, mas em boa hora lhe disseram para se apresentar aqui. Fez logo a diferença pela forma como pegava na bola e se colocava no terreno." Pouco impressionado com a forte cobiça rapidamente suscitada em torno do craque de palmo e meio, o técnico não tem dúvidas de que Alvalade é o destino ideal. "É bastante importante que ele tenha a oportunidade de evoluir numa escola dotada de outras condições, apesar de o Olhanense também ser um grande clube. O Benfica, o Belenenses e o Chelsea também o abordaram, mas o desejo do 'Cris' em ir para o Sporting foi sempre fortíssimo. No fundo, é importante que as pessoas se apercebam que aqui também surgem jogadores com qualidade. O Cristian tem boa técnica, força e uma capacidade física invulgares, podendo vir a ser um grande jogador, mas precisa de continuar a evoluir", acentua. "Felizmente, continuará a trabalhar connosco nos próximos tempos."

Além dos dotes futebolísticos do seu pupilo, Rui Lúcio frisa a forma como "Cris" rapidamente se adaptou. "Ele é muito querido pelos colegas. É um miúdo alegre, que se integra com facilidade. Fruto da idade, nunca se deixou afectar pela curiosidade que existe em seu redor, o que é óptimo."
 

A lição do pequeno líder

Final de manhã no Estádio José Arcanjo, onde há várias gerações passou o campeonato principal dos graúdos, quando o Olhanense era o símbolo do futebol algarvio, tradição iniciada no ainda utilizado Campo Padinha. No dia anterior já Cristian nos tinha avisado esfuziante: "Amanhã vão ver-me jogar na relva." O artista de palmo e meio não fez por menos. Foi impossível não o ver.

O sol de Março sorri lá de cima e as escolas do clube da capital da Ria Formosa perfilam-se para medir forças com o Bellavista, encontro a contar para a terceira edição do torneio "Luciano Jorge Fernandes". Cristian é o segundo do grupo de sete (número de jogadores utilizado no escalão) a subir ao diminuto espaço de jogo, com o número quatro no dorso. É o mais alto e vistoso do grupo: fita no cabelo para segurar as melenas rebeldes, punho elástico nos pulsos, mãos nas ancas, uma perna à frente da outra, fica majestoso por segundos numa sobranceria, dir-se-ia, só admissível aos craques. O árbitro apita para o início. Cristian recebe a bola no centro do terreno e, prontamente, coloca-a rasteira e jogável para um colega. Corre como ninguém e está sempre em jogo, superiorizando-se com facilidade aos adversários. O escalão já parece pequeno para ele.
 

Marcou quatro golos... e esteve nos outros quatro

À segunda tentativa de remate, inaugura o marcador, contando com a colaboração do "guardião" contrário. Festeja como se nunca tivesse marcado. O jogo está bom para o Olhanense e Cristian comanda as operações. Gesticula, dá ordens com maneirismos de líder.

Depois de uma assistência de "Cris" para o segundo da sua equipa, o Bellavista reduz de penálti. É agora que o romeno acentua a diferença. Após recuperar a bola na sua área (fá-lo inúmeras vezes), sobe no terreno. Penteia a bola duas vezes, ilude a oposição e, sem linhas de passe, decide-se pelo remate de longe. Uma "bombinha" a uma distância considerável para o seu tamanho leva o destino certo - 3-1. Cristian joga, faz jogar, defende, ataca, mostra agressividade, ímpeto e disciplina táctica invulgares. Contagia e a plateia só fala dele. "Vai para o Sporting, não admira." Com o "placard" já em 5-1, choca com um adversário. Fica preocupado, ajoelha-se para se certificar do seu estado. Faz-lhe uma festa e a pequena "vítima" luta para conter as lágrimas. Não foi por maldade, mas sim pela robustez do futuro "leãozinho". O encontro termina 8-1. Cristian marcou mais dois (quatro ao todo, um deles de livre directo) e esteve nos restantes. Comemora sempre efusivamente.

No final, cumprimenta tudo e todos e é a vez de ser ele a perguntar aos repórteres de O JOGO: "Gostaram?"
 

in "O Jogo" (www.ojogo.pt)

 
 

     
     
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