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Escolhemos uma imagem do último jogo do Olhanense, em Mafra,
para ilustrar esta notícia. A fotografia refere-se ao minuto
de silêncio antes da partida na qual sairíamos derrotados.
No próximo Domingo, infelizmente, os estádios deste país vão
ter de voltar a calar-se durante sessenta segundos. Pedimos
imensa desculpa mas não sabemos em memória de quem é que se
efectuou o minuto de silêncio em Mafra. Lamentamos a nossa
ignorância, não é falta de respeito. E porquê esta
deliberada vontade de reconhecer ignorância? Já vai perceber
mais abaixo como a ignorância pode ser uma coisa boa, ainda
que apenas durante alguns momentos.
Relativamente à mensagem enviada pela Direcção, agradecemos
o agradecimento. Era o mínimo que podíamos fazer. Não foi
para ficar bem, nem bonito. E para "tirarmos isto do peito",
deixem-nos contar a história do que o "staff" (como já nos
chamaram) resolveu fazer após esta tragédia que comoveu o
país.
Devo dizer que, ainda na noite de Domingo, recebi um
telefonema do Nuno (adepto do Sporting) a sugerir que o site estivesse de luto a
partir do dia seguinte. Na altura respondi que nem queria
pensar nisso, ou raciocinar sobre o acontecimento naquele
momento. Estava, talvez, com receio do que pudesse ser
considerado "lamechas" ou "exagero". Mas não só. Também
estava com receio do que pudesse ser considerado "pouco" ou
"falta de respeito". E ao mesmo tempo ainda, não me apetecia
pensar naquilo, sequer. Se não pensasse naquilo, talvez
aquilo não tivesse realmente acontecido.
Mas aconteceu, e na 2.ª Feira de manhã lá estava, de volta a
uma realidade que ainda custava a acreditar que fosse,
realmente, real. Lá fiz aquele texto, resumido e tal (que
ainda lá está na página principal com data de dia 25), que
partilhei com o Henrique. Ele de imediato concordou em não
fazermos grandes testamentos. Por vezes é melhor assim. Peço
desculpa se pareceu "pouco" ou se pareceu "muito", mas foi o
que "conseguimos" naquela altura. Não foi desrespeitador,
pensamos que é o que conta.
Durante o dia, o Manel (que esteve no Estádio D. Afonso
Henriques neste malogrado jogo) um colaborador "esporádico"
do nosso site, mandou-nos uma bonita
FOTOGRAFIA
de uma das últimas
celebrações de Fehér, captada após o excelente golo que
o malogrado Húngaro marcou ao La Louviére no Estádio do
Bessa.
De seguida, já nem sei se fui eu o Henrique quem se lembrou de
fazermos uma breve alusão à tragédia de contornos similares
que temos em comum com o SL Benfica. Só apareceria na parte
da noite, e falamos na trágica morte de
LUCIANO
na década de sessenta, onde também esteve envolvido
Eusébio (que se "safou" por pouco). O "Magriço"
José Augusto também não esquece essa tragédia, e relembrou-a
em declarações publicadas no "Record" de ontem. A morte (e
principalmente a vida) de Luciano é uma história que já estamos "a dever" há muito, e
sobre a qual publicámos agora os principais factos. A ela voltaremos,
quando dispusermos de mais elementos ou quando se
proporcionar.
Depois disso, acho que só na 3.ª feira ou 4.ª Feira é que nos
lembrámos que o fundo normalmente cinza da página principal
poderia, simplesmente, passar a negro, de luto. E assim ficou.
E ficará até Domingo, quando os nossos briosos jogadores
fizerem a sua homenagem a "Miki" Fehér. Ou até 3.ª Feira quando o SL
Benfica voltar a efectuar um jogo. Logo se vê. Decidir isso
agora não é o mais importante. |
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O texto acima foi escrito em nome do grupo de pessoas que
"produz" este site. Daqui para baixo vou (tentar) falar
sobre a tal "ignorância", aludida no início desse primeiro
texto. Falarei a nível pessoal, e talvez, em parte, por
alguns adeptos Olhanenses que se deslocaram a Mafra no
passado Domingo.
Tenho também de confessar que inicialmente evitei escrever,
falar ou raciocinar muito sobre o assunto. Alguns conhecidos
meus estavam à espera que eu me pronunciasse mais sobre a
coisa, sabendo que eu gosto de escrevinhar umas coisas, e
que até sou do Benfica, além de rubro-negro. Mais: tive
vontade de prometer a mim próprio que não escreveria
(publicamente) sobre a minha experiência pessoal neste caso.
Por tão insignificante que ela é, dada a magnitude do
acontecido. Pelo enorme número de pessoas que tocou. Pelo
enorme número de palavras já escritas. O que adiantariam as
minhas? Por melhor ou pior que escrevesse sobre a coisa,
isso não traria de volta aquele jovem
que todos viram despedir-se da vida com um
sorriso que, agora, nos parece angelical.
Relativamente à "ignorância" e "sorte", tenho esta teoria
(estapafúrdia?) de que, de certa forma, foram mais
"sortudos"
os Olhanenses que vinham comigo no autocarro da Rute quando
aquilo aconteceu do que as pessoas que conheço que estavam a ver
o jogo pela televisão. É estapafúrdia porque obviamente não
fomos as únicas pessoas que não viram a coisa em directo.
Mas vou avançar com a teoria na mesma. Para nós, "sortudos",
ouvindo apenas pela rádio, ficou a ideia que o jogador tinha ficado
caído no chão,
mas que depois recuperou os sentidos. Só. Pois foi basicamente isso que ouvimos.
Quem viu na TV, terá percebido imediatamente que não havia
grandes esperanças. Nós (ou apenas eu?), na nossa
"ignorância", tivemos a sensação que era apenas uma quase-tragédia.
Quando cheguei a casa liguei a televisão e, inclusive, fiquei a olhar
práquilo, como uma criança. "Olha, uma cena quase igual à
do Foe dos Camarões... Vá lá que
o Feher
ainda conseguiu safar-se".
Alguns minutos depois (dez ou quarenta, não sei) transmitem a
pior
notícia possível.
Fiquei sem saber o que sentir. Mas gostei, muito, das emoções que o
povo do meu país me fez sentir
nos dias seguintes.
Em suma, por muito desgostoso que tenha vindo de Mafra com a
derrota, já não estava tão arrependido por lá ter ido, como
inicialmente ficara. Pode parecer um raciocínio estúpido,
mas sinto conforto por não ter visto a tragédia de Guimarães
em directo. Pelo choque que não tive (e que não desejo a
ninguém) e por, durante algum tempo, ter acreditado (ou
querido acreditar, não sei) que Fehér tinha sobrevivido.
Para mim, depois da "negação" em escrever ou falar sobre a
morte de Fehér, veio, como está óbvio agora, a vontade de
escrever apenas para mim próprio. De me irritar com a
continuada e massacrante repetição das imagens da queda em
pleno relvado, em câmara lenta, por parte de alguns canais
televisivos. Quase que em loop. Até que ponto pode ir
a insensibilidade, meu Deus? Com tanta imagem gravada que
deve haver de golos do atleta nos vários clubes onde jogou,
ou até na Selecção Húngara, para quê banalizar de tal modo
uma imagem chocante daquelas? É a banalização pura da vida
humana. Não estou a dizer que as imagens não deveriam ser
exibidas, mas... repetindo constantemente? Tentei fazer-me
sempre de forte, mas juro que os meus olhos
já se fecham automaticamente ao ver aquela malfadada sequência,
mal ele joga as mãos aos joelhos.
Já tinha ouvido uns zunzidos, durante os dois dias
anteriores, mas fiquei terrivelmente aliviado (qual golo
metido por Fehér, do além), na 4.ª Feira, ao saber que o
realizador da "Sportv", Ricardo Espírito Santo (falem-me em
coincidências...), proibiu imagens mais aproximadas do drama,
na transmissão directa. Ironicamente, soube dessa notícia
através da TVI, num daqueles programas em que entra a Júlia
Pinheiro, onde mostram o destaque dos jornais do dia, logo
pela manhã. Destacavam uma
NOTÍCIA
no "Díário de Notícias". Acreditem: só chorei nesse dia e nesse momento. Andei a tentar
convencer-me a mim próprio (durante Domingo à noite e nos
dias de Segunda
e Terça) que o acontecido era triste, muito triste, mas que
aquilo são coisas que acontecem. No futebol ou em qualquer
outro local, há
mortes estúpidas, acontecimentos inesperados com
consequências inesperadas, e que as pessoas estavam a
exagerar devido a toda a envolvência mediática da coisa. Atrevi-me
até a desconfiar que havia naquelas imagens uma poesia
demasiada cinematográfica para ser verdadeira e não
encenação ou efeitos especiais. O problema é que nunca
acreditei em mim próprio. Estive várias vezes com a
lágrima no canto do olho, mas... mudava sempre de
canal. Literalmente. Até ontem de manhã.
Adormeci com a
televisão ligada, estava a dar o "Padrinho III", e acordo
com o referido programa que abordava os destaques dos jornais do dia.
Não sei que diabo me deu - ou até sei, não sei é explicar -
para festejar o aquela notícia como se de um
golo se tratasse. Ainda estava meio a dormir, e, finalmente, não mudei de canal. Deixei
o líquido salgado sair. E depois lavei a cara e os dentes e
fui trabalhar. E
agora estou práqui a perder a noite escrevendo isto, com o sorriso mais
reconfortante de que me recordo ter estampado nas fuças
desde há muito.
Não posso deixar de acrescentar que agora o que acho bonito e
"humanista" nisto tudo é, afinal, também o que achava
aberrante: a utilização das imagens. Por "mérito" de Ricardo
Espírito Santo recordaremos para sempre como última imagem
da face de Fehér «o sorriso com que se despediu da vida».
Prefiro (e penso que não estou sozinho) assim mesmo, com
esta espécie de "montagem final do realizador".
E pronto(s). Tá escrito, tá escrito. Eis o meu exercício de
exorcismo. Se é egoísmo ou ganância (por querer participar na emoção e
dor geral) ou exactamente o contrário (por partilhar algo do
que me passou na alma nestes últimos dias), não sei e já nem quero
saber. E se foi (muito ou pouco) lamechas, pouco me
interessa agora. Também... quem é que tem a "escala" disso,
mó? |