Saúde Pública

[ 29 de Janeiro de 2004 ]

 

HOMENAGEM RUBRO-NEGRA A MIKLOS FEHÉR

 

Recebemos hoje, via e-mail, a seguinte mensagem:

«A direcção do SCO e os seus jogadores vão neste Domingo prestar uma última homenagem a Feher, que consiste numa mensagem dos atletas ao malogrado companheiro.

Mais uma vez agradecemos a este Site a forma correcta como através do nome do SCO prestou ele próprio a homenagem.»

 
 

Escolhemos uma imagem do último jogo do Olhanense, em Mafra, para ilustrar esta notícia. A fotografia refere-se ao minuto de silêncio antes da partida na qual sairíamos derrotados. No próximo Domingo, infelizmente, os estádios deste país vão ter de voltar a calar-se durante sessenta segundos. Pedimos imensa desculpa mas não sabemos em memória de quem é que se efectuou o minuto de silêncio em Mafra. Lamentamos a nossa ignorância, não é falta de respeito. E porquê esta deliberada vontade de reconhecer ignorância? Já vai perceber mais abaixo como a ignorância pode ser uma coisa boa, ainda que apenas durante alguns momentos.

Relativamente à mensagem enviada pela Direcção, agradecemos o agradecimento. Era o mínimo que podíamos fazer. Não foi para ficar bem, nem bonito. E para "tirarmos isto do peito", deixem-nos contar a história do que o "staff" (como já nos chamaram) resolveu fazer após esta tragédia que comoveu o país.

Devo dizer que, ainda na noite de Domingo, recebi um telefonema do Nuno (adepto do Sporting) a sugerir que o site estivesse de luto a partir do dia seguinte. Na altura respondi que nem queria pensar nisso, ou raciocinar sobre o acontecimento naquele momento. Estava, talvez, com receio do que pudesse ser considerado "lamechas" ou "exagero". Mas não só. Também estava com receio do que pudesse ser considerado "pouco" ou "falta de respeito". E ao mesmo tempo ainda, não me apetecia pensar naquilo, sequer. Se não pensasse naquilo, talvez aquilo não tivesse realmente acontecido.

Mas aconteceu, e na 2.ª Feira de manhã lá estava, de volta a uma realidade que ainda custava a acreditar que fosse, realmente, real. Lá fiz aquele texto, resumido e tal (que ainda lá está na página principal com data de dia 25), que partilhei com o Henrique. Ele de imediato concordou em não fazermos grandes testamentos. Por vezes é melhor assim. Peço desculpa se pareceu "pouco" ou se pareceu "muito", mas foi o que "conseguimos" naquela altura. Não foi desrespeitador, pensamos que é o que conta.

Durante o dia, o Manel (que esteve no Estádio D. Afonso Henriques neste malogrado jogo) um colaborador "esporádico" do nosso site, mandou-nos uma bonita
FOTOGRAFIA de uma das últimas celebrações de Fehér, captada após o excelente golo que o malogrado Húngaro marcou ao La Louviére no Estádio do Bessa.

De seguida, já nem sei se fui eu o Henrique quem se lembrou de fazermos uma breve alusão à tragédia de contornos similares que temos em comum com o SL Benfica. Só apareceria na parte da noite, e falamos na trágica morte de
LUCIANO na década de sessenta, onde também esteve envolvido Eusébio (que se "safou" por pouco). O "Magriço" José Augusto também não esquece essa tragédia, e relembrou-a em declarações publicadas no "Record" de ontem. A morte (e principalmente a vida) de Luciano é uma história que já estamos "a dever" há muito, e sobre a qual publicámos agora os principais factos. A ela voltaremos, quando dispusermos de mais elementos ou quando se proporcionar.

Depois disso, acho que só na 3.ª feira ou 4.ª Feira é que nos lembrámos que o fundo normalmente cinza da página principal poderia, simplesmente, passar a negro, de luto. E assim ficou. E ficará até Domingo, quando os nossos briosos jogadores fizerem a sua homenagem a "Miki" Fehér. Ou até 3.ª Feira quando o SL Benfica voltar a efectuar um jogo. Logo se vê. Decidir isso agora não é o mais importante.

 
 
Olhanenses que foram a Mafra... terão sofrido menos com a tragédia?
 

O texto acima foi escrito em nome do grupo de pessoas que "produz" este site. Daqui para baixo vou (tentar) falar sobre a tal "ignorância", aludida no início desse primeiro texto. Falarei a nível pessoal, e talvez, em parte, por alguns adeptos Olhanenses que se deslocaram a Mafra no passado Domingo.

Tenho também de confessar que inicialmente evitei escrever, falar ou raciocinar muito sobre o assunto. Alguns conhecidos meus estavam à espera que eu me pronunciasse mais sobre a coisa, sabendo que eu gosto de escrevinhar umas coisas, e que até sou do Benfica, além de rubro-negro. Mais: tive vontade de prometer a mim próprio que não escreveria (publicamente) sobre a minha experiência pessoal neste caso. Por tão insignificante que ela é, dada a magnitude do acontecido. Pelo enorme número de pessoas que tocou. Pelo enorme número de palavras já escritas. O que adiantariam as minhas? Por melhor ou pior que escrevesse sobre a coisa, isso não traria de volta aquele jovem que todos viram despedir-se da vida com um sorriso que, agora, nos parece angelical.

Relativamente à "ignorância" e "sorte", tenho esta teoria (estapafúrdia?) de que, de certa forma, foram mais "sortudos" os Olhanenses que vinham comigo no autocarro da Rute quando aquilo aconteceu do que as pessoas que conheço que estavam a ver o jogo pela televisão. É estapafúrdia porque obviamente não fomos as únicas pessoas que não viram a coisa em directo. Mas vou avançar com a teoria na mesma. Para nós, "sortudos", ouvindo apenas pela rádio, ficou a ideia que o jogador tinha ficado caído no chão, mas que depois recuperou os sentidos. Só. Pois foi basicamente isso que ouvimos. Quem viu na TV, terá percebido imediatamente que não havia grandes esperanças. Nós (ou apenas eu?), na nossa "ignorância", tivemos a sensação que era apenas uma quase-tragédia.

Quando cheguei a casa liguei a televisão e, inclusive, fiquei a olhar práquilo, como uma criança. "Olha, uma cena quase igual à do Foe dos Camarões... Vá lá que o Feher ainda conseguiu safar-se". Alguns minutos depois (dez ou quarenta, não sei) transmitem a pior notícia possível. Fiquei sem saber o que sentir. Mas gostei, muito, das emoções que o povo do meu país me fez sentir nos dias seguintes.

Em suma, por muito desgostoso que tenha vindo de Mafra com a derrota, já não estava tão arrependido por lá ter ido, como inicialmente ficara. Pode parecer um raciocínio estúpido, mas sinto conforto por não ter visto a tragédia de Guimarães em directo. Pelo choque que não tive (e que não desejo a ninguém) e por, durante algum tempo, ter acreditado (ou querido acreditar, não sei) que Fehér tinha sobrevivido.

Para mim, depois da "negação" em escrever ou falar sobre a morte de Fehér, veio, como está óbvio agora, a vontade de escrever apenas para mim próprio. De me irritar com a continuada e massacrante repetição das imagens da queda em pleno relvado, em câmara lenta, por parte de alguns canais televisivos. Quase que em loop. Até que ponto pode ir a insensibilidade, meu Deus? Com tanta imagem gravada que deve haver de golos do atleta nos vários clubes onde jogou, ou até na Selecção Húngara
, para quê banalizar de tal modo uma imagem chocante daquelas? É a banalização pura da vida humana. Não estou a dizer que as imagens não deveriam ser exibidas, mas... repetindo constantemente? Tentei fazer-me sempre de forte, mas juro que os meus olhos já se fecham automaticamente ao ver aquela malfadada sequência, mal ele joga as mãos aos joelhos.

Já tinha ouvido uns zunzidos, durante os dois dias anteriores, mas fiquei terrivelmente aliviado (qual golo metido por Fehér, do além), na 4.ª Feira, ao saber que o realizador da "Sportv", Ricardo Espírito Santo (falem-me em coincidências...), proibiu imagens mais aproximadas do drama, na transmissão directa. Ironicamente, soube dessa notícia através da TVI, num daqueles programas em que entra a Júlia Pinheiro, onde mostram o destaque dos jornais do dia, logo pela manhã. Destacavam uma
NOTÍCIA no "Díário de Notícias". Acreditem: só chorei nesse dia e nesse momento. Andei a tentar convencer-me a mim próprio (durante Domingo à noite e nos dias de Segunda e Terça) que o acontecido era triste, muito triste, mas que aquilo são coisas que acontecem. No futebol ou em qualquer outro local, há mortes estúpidas, acontecimentos inesperados com consequências inesperadas, e que as pessoas estavam a exagerar devido a toda a envolvência mediática da coisa. Atrevi-me até a desconfiar que havia naquelas imagens uma poesia demasiada cinematográfica para ser verdadeira e não encenação ou efeitos especiais. O problema é que nunca acreditei em mim próprio. Estive várias vezes com a lágrima no canto do olho, mas... mudava sempre de canal. Literalmente. Até ontem de manhã.

Adormeci com a televisão ligada, estava a dar o "Padrinho III", e acordo com o referido programa que abordava os destaques dos jornais do dia. Não sei que diabo me deu - ou até sei, não sei é explicar -  para festejar o aquela notícia como se de um golo se tratasse. Ainda estava meio a dormir, e, finalmente, não mudei de canal. Deixei o líquido salgado sair. E depois lavei a cara e os dentes e fui trabalhar. E agora estou práqui a perder a noite escrevendo isto, com o sorriso mais reconfortante de que me recordo ter estampado nas fuças desde há muito.

Não posso deixar de acrescentar que agora o que acho bonito e "humanista" nisto tudo é, afinal, também o que achava aberrante: a utilização das imagens. Por "mérito" de Ricardo Espírito Santo recordaremos para sempre como última imagem da face de Fehér «o sorriso com que se despediu da vida». Prefiro (e penso que não estou sozinho) assim mesmo, com esta espécie de "montagem final do realizador".

E pronto(s). Tá escrito, tá escrito. Eis o meu exercício de exorcismo. Se é egoísmo ou ganância (por querer participar na emoção e dor geral) ou exactamente o contrário (por partilhar algo do que me passou na alma nestes últimos dias), não sei e já nem quero saber. E se foi (muito ou pouco) lamechas, pouco me interessa agora. Também... quem é que tem a "escala" disso, mó?

 

Miguel

 

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