[ 12 de Junho de 2003 ]

 

ASSEMBLEIA ATRIBUIU PODERES À DIRECÇÃO PARA VENDER
OU PERMUTAR TERRENOS ADJACENTES AO ESTÁDIO JOSÉ ARCANJO

 



José Cardoso, foi "forçado"
a recandidatar-se



Artigos na
comunicação social:

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Tudo parece estar bem quando acaba bem, e melhor ainda quando decidido em "família"...

E é o que parece ter acontecido na família rubro-negra, após esta muito concorrida Assembleia Geral Extraordinária (AGE), que contou com a presença de mais de uma centena de associados, os quais, durante cerca de três horas, discutiram bastante sobre vários assuntos da vida do clube.

A Assembleia teve, como ponto de abertura, a leitura do parecer jurídico do consócio Dr. Filipe Ramires, que comprovou o que já se suspeitava: a polémica carta entregue na primeira data marcada para esta AGE não só não podia ter qualquer seguimento visto os prazos terem prescrito, como não devia ter motivado o adiamento da Assembleia, simplesmente por não constar na
ORDEM DE TRABALHOS.

Antes da discussão do ponto principal, houveram outros assuntos em debate, nomeadamente sobre os terrenos do outro Estádio, o Padinha (sobre o qual se ficou a saber que existe vontade e proposta para colocação de relva sintética), e o rumor relativo a um possível projecto que "roubava" um pedaço à actual "casa" das camadas jovens rubro-negras. Em relação a esse assunto as suspeitas de alguns associados parecem não ter, por enquanto, qualquer fundamento.

Os sócios indagaram ainda sobre o estado do processo do desmoronamento da sede, ao que José Cardoso não pôde dar detalhes do estado actual do processo, dizendo apenas que o assunto está entregue a um advogado.

Contudo, o grande ponto de interesse desta AGE era a atribuição de poderes à Direcção (que, recorde-se, terminou o seu mandato há dois meses e aguarda acto eleitoral) para vender ou permutar parte dos terrenos do Estádio José Arcanjo. A medida foi, efectivamente, aprovada, mas não sem que antes muitos associados tivessem protestado, pedido explicações e os mais diversos esclarecimentos sobre os pormenores da transacção.

José Cardoso só conseguiu o apoio da maioria dos presentes quando se viu "forçado" a admitir a recandidatura ao acto eleitoral que se avizinha (a ser marcado para daqui a dois meses, aproximadamente, segundo o Presidente de Mesa da Assembleia). Muitas dos opositores mudaram de opinião e acabaram por aplaudir essa intenção. O próprio Presidente da Mesa da AGE, o Engenheiro Francisco Leal, não conseguiu esconder o seu regozijo pelo facto, pedindo mesmo a José Cardoso para este repetir, e confirmar se tinha ouvido bem, quando afirmou, mais uma vez, que se candidataria «se não aparecer alguém de confiança». Um cheirinho a dejás vu, misturado com tabu, que os adeptos Olhanenses já haviam visto há cerca de dois anos, e que, já se desconfiava, voltaria a acontecer. 

Apesar de decidido "em família", todo o processo foi o chamado "exemplo de como não se deve fazer". É que, apesar de esta iniciativa ter sido desenvolvida pela Direcção presidida por José Cardoso (logo, sendo de inteira justiça que fosse essa mesma direcção a concluir o negócio), para todos os efeitos também existia (ou existe...) um vazio directivo. O mandato acabou há dois meses, e nem José Cardoso nem qualquer outra pessoa haviam manifestado vontade de concorrer ao cargo, se exceptuarmos um "ameaço", não confirmado, do vice-presidente do Beira Mar de Monte Gordo.

Ou seja, para todos os efeitos estava a ser aprovada uma medida atribuindo poderes a uma Direcção sobre a qual ninguém fazia a mínima ideia qual seria. Além de que, a Direcção (em gestão corrente) não esclareceu minimamente os sócios sobre os contornos do negócio. Mesmo que não se avizinhassem eleições, ou mesmo que o mandato estivesse a meio, a Direcção é sempre obrigada a levar mais dados informativos para uma AGE, principalmente quando se trata de alienação de património do clube.

Não está em causa o negócio ser bom ou não (e, em tempos de crise, este parece ser, realmente, um bom negócio), mas sim o Olhanense ainda ser um clube, e não uma SAD. Como tal, os seus sócios ainda mandam nele, sejam dez ou dez mil, e tenha a Direcção doze meses ou doze anos de mandatos nas suas "costas", os associados é que mandam. Eles é que elegem a Direcção, sendo esta a representante da sua vontades, e não o contrário. O facto de não aparecer opositor ou alternativa não pode legitimar qualquer tipo de atitude prepotente, tendo o dever de informar os sócios sobre todos os assuntos da vida do clube.

«Dizem que a cidade está divorciada do clube, mas quando alguém quer saber alguma coisa, apontam-lhe dedos, comos se fosse um inimigo», disse, e muito bem, um dos sócios que estava bastante duvidoso em relação ao negócio e que, ao saber da intenção de (re)candidatura de José Cardoso, mudaria mesmo de opinião.

O ainda actual Presidente, se tem intenções de continuar à frente do clube, e quem o acompanhar, terá de ver este tipo de situações não como ingratidão, mas sim como um direito do associado, tendo que lhe assegurar de que está a fazer o que pensa estar bem, comprovando-o, e não esperar que o associado parta desse princípio.

Ninguém tem o direito de duvidar da boa fé da Direcção, mas esta tem de ter em conta quão desconfiado, já por natureza, é um natural da nossa cidade. José Cardoso não se pode dar ao luxo de um associado lhe perguntar, várias vezes, numa AGE, se os terrenos tinham ou não sido previamente avaliados e não clarificar, automaticamente, o assunto. Temas, desta importância e envergadura, não podem ser tratados com tanta leviandade. Se o Olhanense dispõe, por exemplo, de um jornal (coisa que não muitos clubes neste país se podem orgulhar), supostamente este deveria servir para informar os sócios da vida do clube a tempo e horas, o que, manifestamente, não acontece. Dispor de um meio de comunicação e praticamente nada fazer com ele é o mesmo que não o ter...

Fica a "promessa" de venda dos terrenos por cerca de 200 mil contos (60 mil dos quais pertencerão à Câmara Municipal para pagar o loteamento do terreno) e do clube ter direito ainda a 10 apartamentos (sendo seis T2 e quatro T3) dos 130 a construir, assim como um rés-do-chão onde funcionará, eventualmente, a nova sede. Com estas verbas (avaliadas, por alto, como uma entrada algures entre o meio milhão de contos e o milhão de euros) a Direcção conta colocar o passivo a zeros. A ver vamos, visto que quem assina este texto é um rapazinho que se recorda perfeitamente de assistir a uma AGE, também bastante concorrida, há mais de uma dezena de anos atrás, onde se disse que o Bingo seria a salvação deste clube...

Miguel Saial



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