[ 6 de Março de 2003 ]

 O "DECO" OLHANENSE?

      

Numa altura em que tanto se fala da naturalização de Deco e da posibilidade de representar a Selecção Portuguesa, um português vive uma situação semelhante, na Bulgária. Trata-se de João Paulo Brito, um jogador oriundo das camadas jovens rubro-negras que poderá representar os búlgaros no "Euro 2004". O diário "Record" dedicou-lhe hoje as suas páginas centrais.

     

in Record, Quinta-Feira, 6 de Marco de 2003

«JOÃO PAULO BRITO BRILHA NA BULGÁRIA 
É português, mas agora também é búlgaro. Adquiriu a dupla nacionalidade para facilitar a inscrição de mais estrangeiros no CSKA Sofia, onde está desde o início da época. Mas "arrisca-se" a ser chamado à selecção da Bulgária, pois o técnico Markov vai estar atento

As casas, tristes e inexpressivas, erguem-se à volta das fábricas, fortalezas de trabalho para toda uma população. Umas e outras estão decadentes, imagens de um tempo que parecia apenas existir em filme. Paredes cinzentas, a pelar de cor, deixam correr os anos à espera de uma intervenção que nunca se faz. Na cidade, o parque automóvel está descatualizado, mas o trânsito não é caótico e as pessoas ocupam as ruas e as lojas com ar de quem também espera por algo que, talvez, nem saibam o que é. Estamos em Sófia, capital da Bulgária, país que acredita em melhores dias e recupera lenta, mas visivelmente de uma herança política que desactualizou a sua Economia. A chave, acredita o actual Governo búlgaro, pode estar numa apetecível entrada na União Europeia, eventualmente em 2007.

É nesta cidade virada para o futuro que João Paulo Brito escolheu viver e continuar a carreira no histórico CSKA Sofia, depois de representar clubes como o Belenenses ou o Estrela da Amadora. O jogador português tornou-se assim no "homem que mordeu o cão", por ser mais comum o fluxo de trabalho processar-se ao contrário. "Mladenov convidou-me para o CSKA. Vim uma semana em Maio para ver as condições e acabei por assinar por dois anos", conta. E ainda que a opção do extremo-direito não seja inédita, uma vez que a primeira experiência de um jogador luso na Bulgária foi a de Rodrigo Brazão, no Litex Lovech, novidade mesmo é o facto deste algarvio, nascido há 28 anos em Bracanes, concelho de Olhão, ter também adquirido a nacionalidade búlgara em finais de Fevereiro.

Mas o que poderia ser apenas uma circunstância curiosa assume agora contornos sérios. As boas exibições, elogiadas na Imprensa búlgara, o apreço rapidamente conquistado entre adeptos e rivais, o facto de o CSKA estar a lutar por um título que lhe foge há seis anos, a simpatia de ter adquirido a dupla nacionalidade e, acima de tudo, o nunca ter representado a selecção portuguesa, atrairam a atenção do seleccionador nacional Plamen Markov, o qual já disse que não afasta uma eventual convocação do jogador luso-búlgaro, caso este mantenha o bom nível de actuação. É assim que, de repente, Brito, como é conhecido no futebol búlgaro, é assunto nacional, embora numa escala bem inferior à atribuida em Portugal relativamente à naturalização de Deco e à sua eventual integração na formação das quinas.

Por enquanto, uma possivel internacionalização pela Bulgária é só mesmo uma hipótese, mas certo é que na equipa nacional não abundam opções com as características do português: extremo-direito, tecnicista, veloz na desmarcação, incisivo a entrar na área e a cruzar ou a assistir os companheiros. "Não estava no meu horizonte chegar à selecção da Bulgária. Agora é evidente que com a dupla nacionalidade e o bom trabalho que tenho feito no CSKA, isso até pode ser possível", confessa.

Para o jogador seria uma experiência extraordinária. "Se fosse chamado ficaria muito alegre, pois trata-se de uma selecção importante e que está bem encaminhada para o Euro-2004. Não sei qual seria a minha reacção se, eventualmente, fosse ao Europeu pela Bulgária, mas ia ser emocionante", assinala antes de, humilde e reconhecidamente, conceder que é quase impossível representar Portugal.

Sobretudo, João Paulo Brito está tranquilo. O pedido de dupla nacionalidade não foi feito a pensar na selecção búlgara e, por isso, o que vier, virá por acréscimo. Tratou-se antes de uma sugestão do seu treinador no CSKA, o bem conhecido Stoicho Mladenov – o perfume do seu futebol está ainda na memória de muitos adeptos lusos, em particular os do Belenenses –, o qual precisou contornar o limite de inscrição de estrangeiros no campeonato búlgaro, estipulado em sete jogadores por clube, por forma a contratar o defesa brasileiro Fábio Lima, que, de resto, já se estreou no dia 28. É que, para além de João Paulo Brito, a formação de Sófia contava ainda com os também brasileiros João Carlos e Agnaldo Pereira, o argentino Marcos Charras, o senegalês Ibrahima Gueye, o macedónio Artim Sakiri e o sul-africano Mukasi, e a solução de Mladenov estava na amizade com Brito. "Mladenov pediu-me para avançar com o processo de dupla naturalização. Como eu não tinha nada a perder aceitei a sugestão", explica. Ao contrário do que aconteceria por exemplo em Portugal, a acção foi concretizada numa questão de dias. "Julgo que o ministro dos Desportos envolveu-se directamente", justifica. Até por isso, ver João Paulo Brito em Portugal com a camisola búlgara não é um sonho.

Do Pechão à experiência búlgara
"O primeiro impacto foi estranho. Tudo era diferente de Portugal", confessa João Paulo Brito quando recorda a chegada a Sófia, em Junho. "No início, a adaptação foi difícil. Por muito que me quisessem ajudar, era sempre complicado comunicar", mas, acrescenta, "os dois brasileiros, o argentino e, sobretudo, os membros da equipa técnica, que falam quase todos português, facilitaram a integração". Mladenov, o técnico principal, foi, aliás, o principal motor da ida de Brito para a Bulgária. "Foi ele que me levou dos distritais para o Olhanense. O meu técnico no Pechão, o sr. Vítor, tinha um restaurante onde o Mladenov ia comer, chamado "Tintol", e falou-lhe de mim. Pouco depois estava no Olhanense. Tive de deixar a carpintaria onde trabalhava para me dedicar apenas ao futebol, ficando a ganhar 60 contos", recorda. "Mais tarde Mladenov voltou a convidar-me, dessa vez para o Belenenses, onde estive quatro anos, já depois de ele sair para seleccionador da Bulgária. Ficámos muito tempo sem falar, mas o ano passado ele conseguiu o meu contacto, falou comigo e aqui estou no CSKA", conta.

Um campeoníssimo renascido das cinzas
João Paulo Brito não está ao serviço de um clube qualquer. O CSKA Sofia é uma das formações históricas do futebol europeu – semifinalista da Taça dos Campeões Europeus em 1967 e 1982 e da Taça das Taças em 1989 –, sendo a mais popular e a de melhor palmares na Bulgária, e por onde passaram jogadores como o mítico Stoitchkov, Penev ou o ex-portista Kostadinov.

Nascido em 1948 como equipa do exército (CSKA refere-se a "Central Sports Klub Armiy"), o clube da capital passou dias difíceis com a queda do regime comunista e a desvinculação ao Estado, em 1992, só vencendo, desde então, mais dois títulos nacionais, em 93 e 97. Todavia, a tendência está a ser invertida graças ao novo presidente, Vassil Bojkov, um conhecido homem de negócios búlgaro, que pegou na colectividade a pedido do seu filho, um jovem fanático do CSKA. Bojkov é dono de vários hotéis em Sófia, mas a sua principal fonte de rendimento são os inúmeros casinos que possui na cidade, o que lhe garante poder e influência nos mais variados sectores da sociedade, incluindo o desportivo. A partir daqui, e com a injecção de milhões de dólares no clube e a aposta em Stoicho Mladenov para treinador e gestor técnico da equipa, a semente começou a dar frutos.

Esta época, o CSKA é líder isolado do campeonato, com 14 vitórias e apenas um empate, está apurado para as meias-finais da Taça da Bulgária e só foi afastado da Taça UEFA pelo Blackburn, com o qual, aliás, nem perdeu (1-1 fora e 3-3 em casa). Os adeptos fizeram as pazes e voltaram a dar apoio incondicional ao clube e à equipa.

Mladenov: «Ajuda equipa a subir»
Lançou João Paulo Brito no Olhanense e levou-o mais tarde para o Belenenses e, agora, deu-lhe a experimentar a primeira aventura no estrangeiro, enquanto jogador do CSKA. Mladenov está convencido de que o seu amigo Plamen Markov, actual seleccionador da Bulgária, está atento ao futebol do extremo-direito podendo convocá-lo no futuro. "A ideia de o naturalizar foi para abrir lugar a mais estrangeiros no CSKA. Contudo, isso foi feito com o conhecimento da federação e sei que eles gostam do Brito, por isso, creio que é possível ir à selecção. Estou muito contente com ele, apesar de saber que ainda pode dar mais ao CSKA e fazer melhor. Seja como for, é um jogador que ajuda a equipa a subir no terreno e quando está psicologicamente bem é um perigo para qualquer defesa."

Anchev: «Pode ir à selecção»
É companheiro de equipa do extremo-direito português e joga na selecção búlgara. Anchev está convencido da possibilidade de Brito integrar as próximas convocatórias de Markov. "Ele tem mostrado que possui valor para jogar na selecção. Aliás, acrescentaria que ele tem lugar em outras equipas fortes da Europa. Julgo que os nossos internacionais não colocariam obstáculos à sua integração. Seria bom para ele, pois estamos no bom caminho no que diz respeito ao apuramento para o Euro-2004, que é disputado precisamente no seu país natal."

O segundo melhor
Brito adaptou-se de imediato ao futebol búlgaro. As suas primeiras exibições deixaram boa impressão na Imprensa local, que, no final da primeira volta do campeonato, o elegeu "segundo melhor estrangeiro" da Liga, atrás do companheiro de equipa, o defesa brasileiro João Carlos.»

Autores: LUÍS MILHANO e PEDRO FERREIRA, em SÓFIA
in Record, Quinta-Feira, 6 de Marco de 2003



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