[ Maio de 2009 ]

DJALMIR, O GOLEADOR

«SOU FILHO DE PESCADOR MAS SÓ COMI PICANHA»

Por Henrique Estevão
Em 24 de Maio de 2004 e neste mesmo espaço escrevi uma crónica com o título: “JÁ PODEM IR DE FÉRIAS”. Foi no final do jogo disputado no Estádio do Algarve, frente ao Louletano e onde o Olhanense garantiu a subida à Liga de Honra, sagrando-se igualmente Campeão da 2.ª Divisão – Zona Sul. Quando escrevi que a equipa já podia ir de férias, era em homenagem a eles e á festa da subida - a alegria e os cânticos lavados com lágrimas derramadas pela massa associativa, num jogo (ainda não) decisivo mas que aconteceu a duas jornadas do fim. A frase mais gritada na bancada dos adeptos era: “O Orgulho do Algarve somos nós!”. Passados cinco anos a história repetiu-se: o Olhanense volta a subir de divisão – agora para o escalão maior – com o mesmo orgulho e a mesma honra que esta cidade merece.

Em 2004 acompanhei o Olhanense igualmente nas duas últimas partidas. Uma delas nos Açores. Só lá estavam 62 adeptos do nosso clube, mas os jogadores (como nós) souberam dignificar as cores da nossa camisola. O José Damásio também lá estava com o seu neto. Pouco tempo depois deixou de estar entre nós depois de um fatídico acidente. Se cá estivesse hoje e assistindo ao que aconteceu este ano, de certeza que saltava e chorava de alegria como todos nós. Permitam-me pois esta singela homenagem.

DJALMIR, CHEGA AO OLHANENSE
Tudo isto me veio à memória porque o Djalmir tinha prometido uma entrevista ao olhanense.net, depois do último jogo. A promessa foi cumprida e falamos com ele. Brasileiro de Aracaju - pequena cidade piscatória no sul do Brasil - e o melhor marcador da 2.ª Liga nesta época com 20 golos. Chegou a Portugal em 2000 para jogar no Famalicão, ai tendo-se destacado como um dos melhores goleadores da 2.ª Divisão B nesse mesmo ano. Posteriormente foi contratado pelo Belenenses (onde não vingou) e regressou ao norte ao serviço do Salgueiros e Feirense. Após uma "pequena aventura" na China acabou "por aterrar em Olhão" em 2006 já com 30 anos. Mesmo assim sagrou-se o melhor marcador da equipa nesse ano e, este ano, com os seus 20 golos, recebeu da claque um hino, que não se vai esquecer por muito tempo: "Jesus perdoa, Djalmir não!".

DJALMIR, FILHO DE PESCADOR MAS QUE COMIA PICANHA
"Eu nasci em Aracuju e o meu pai era pescador. Como era o filho mais novo nunca fui á pesca com ele. "Os meus irmãos sim e diziam-me sempre: tu não sabes o que é sofrer. A gente comia peixe, tu só hoje só come picanha! Diziam isso porque entretanto o meu pai foi trabalhar como cozinheiro para a "Petrobras" e as coisas melhoraram. Aí nasci eu. Havia mais dinheiro e vivíamos melhor. Toda a gente já comia picanha",

Quando tinha 13 anos, o pai do Djalmir morreu. Não lhe quis perguntar como foram as coisas nesse altura. Prezo muito o respeito que devemos ter uns pelos outros. Certo é que ele veio para Portugal - meio a medo, meio sem saber como, como me disse - em 2000, na volta do milénio vendido pelo "terrível Cascavel" ao não menos "terrorífico Famalicão". Por ai ficou até Dezembro de 2001, quando rumou para a capital portuguesa para vestir as cores do Belenenses.

DJALMIR, PELA PRIMEIRA VEZ NUMA GRANDE CIDADE
"Foi a primeira vez na minha vida que vivi numa grande cidade. Foi complicado, só conheci a vizinha do lado quando me vim embora!". Mas também deve ter tido outras emoções que de certeza ainda hoje se lembra ou não fosse: "Na minha estreia foi em Alvalade estavam 30.000 pessoas. Ainda lá jogava o João Pinto e o Paulo Bento. Aquele ambiente da primeira liga era completamente diferente daquilo a que eu estava habituado. Quando a gente entra no campo e vê aquela coisa toda, aquela moldura, até arrepia, só por jogar contra eles: "Até me senti mais eu. Entende?" Entendi... entendi.

Em 2003 saiu de Lisboa e disse finalmente á vizinha: "Bom dia, sou o Djalmir, vou mudar de casa!" - foi novamente para o norte - e aposto que a vizinha hoje ainda nem sabe quem é o Djalmir.

DJALMIR, VAI PARA A CHINA
Antes de vir para Olhão Djalmir, teve uma aventura na China. "Estava lá sozinho e com uma alimentação completamente diferente. Foi uma experiência curta, tipo um estágio. Os chineses corriam que era uma loucura". Tive de perguntar: "E não ficavas sempre em último? Atrás dos chineses todos?" A resposta: " Não sei se pelo meu corpo ou determinação, nem sempre, e quando cheguei aqui a Portugal estava em forma!". Soou-me a desculpa de quem perde para os chineses mas tudo bem. O que interessa á que aterrou em Olhão via um aeroporto qualquer. O treinador era o Manuel Balela, depois o Diamantino, o Álvaro Magalhães e finalmente o Jorge Costa. Djalmir não sabia nada do Olhanense nem desta terra de pescadores. Continuava a comer picanha. Ainda não era nascido quando a equipa militou na 1.ª Divisão. Teve uma vantagem segundo ele: " Era uma cidade pequena - de pescadores, como o meu pai - e a massa associativa sempre apoiava a gente!" Como filho de peixe sabe nadar, não deve ter sido difícil para ele.

DJALMIR NÃO PERDOA, JESUS SIM
Era ao contrário mas esta era a máxima da claque. E este ano consagrado como o grande artilheiro da equipa Djalmir não vai esquecer as gentes de Olhão. "Eu quero agradecer à claque quanto nos apoiaram. Quero dizer que vocês foram importantíssimos na subida. Sem a claque não estávamos lá!". Mas porra (desculpem o palavrão) qual claque qual carapuça tive de lhe perguntar: Mas então e o que o Jorge Costa andou aqui a fazer? Tocava o bombo da claque? "Qual é a tua meu?" - esta frase foi inventada por mim - mas deve ter sido o que ele me devia ter respondido. Mas disse: "Adorei trabalhar com o Jorge Costa! E não falo pelos putos da equipa, falo por mim que já tenho 33 anos. Adorei. Ele consegue porque é um Campeão. Do Porto e da Selecção Nacional e ele ainda vive o futebol, e deixa essa mensagem para a gente. O futebol ainda está vivo dentro dele como jogador, assim ficamos mais tranquilos. E é disso que uma equipa precisa". E a táctica?: ""Ele diz que quem escala a equipa é o jogador. Quem trabalha joga, quem não trabalha não joga. Este ano sempre jogamos em 4-3-3. Mas sempre no ataque, porque conhecíamos o adversário. A equipa técnica tem 6 elementos. Mas ele e o professor Gil, sempre nos passavam a informação e o conhecimento do modo de jogar dos adversários. Quando entravamos em campo já sabíamos tudo. Estava-mos mais tranquilos por saber os pontos fortes e fracos deles. Eu adorei trabalhar com ele."

DJALMIR E A FAMÍLIA SOUSA
Como foi trabalhar com esta Direcção? - Perguntei: "Dou-me bem com todos. Com a Lígia, com o Filipe, todos. Falo mais é com o Presidente. Ele está sempre disposto para nos ajudar em tudo." E como vai ser para o ano?: "Não sei! Tenho mais um ano de contrato e vamos lá ver. Eu falo sempre é com o "Boss". Quem é esse? Perguntei eu feito cromo: "O Presidente!" - Ah já percebi. Porquê ir aos Santos se podes ir directo a Deus, já to fizeram nos cartazes! E como dessas coisas eu - simples repórter - não percebo nada nem quero saber, uma coisa é certa: vai haver conversa, vai. Mas isso são histórias para "A Bola" e para o "Record".

DJALMIR TAMBÉM CONSULTA O NOSSO SITE
"O site olhanense.net é o preferido da minha mulher e o meu também. Quando acaba o jogo nós vamos ao site e já lá esta tudo: as crónicas, reportagens e as fotografias, tudo. Assim não perdemos tempo." Ele sabe lá o trabalho que esta m... dá. Mas não interessa quem o faz por gosto, como ele quando andou na China, não se cansa.

DJALMIR DE VOLTA ÀS ORIGENS
E a pesca. Será que alguma vez vais tentar pescar como o teu pai e os teus irmãos?: " O Jaime - do Louletano, emprestado pelo Olhanense que é da Culatra - sempre me está dizendo para um dia ir á pesca com ele. Apanhar chocos!"

Fazes bem Djalmir. A pesca lúdica relaxa, vai lá vai, moss. Tem é cuidado com o forrado de choco. Todo o cuidado é pouco: "Déz merréis, bald'e choque".

Portem-se mal.


 


 

 

 

 

 

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