Ademir Vieira, brilhou no
Olhanense na década de 70, ao ponto de despertar o interesse do FC Porto e depois do
Celta de Vigo (pode consultar a ficha de Ademir, com várias fotos e recortes no nosso ARQUIVO). Aos 51 anos, tal
como muitos ex-craques, tem uma escola de jogadores, a Escola Luso-Brasileira.
Através de um protocolo com o Olhanense, a sua escola usa as instalações do clube
(Padinha) e o brasileiro é o responsável técnico dos infantis.
A intenção desta entrevista era, obviamente, recolher alguns apontamentos sobre os
tempos que Ademir passou no Olhanense e... não poderíamos ter escolhido melhor. Ademir
é uma daquelas raras pessoas com quem fazer uma entrevista parece demasiado fácil. Digo
isto porque as suas palavras e recordações fluem com uma velocidade tal que as perguntas
do entrevistador deixam de ter lógica. Não acreditam? Então vejam como foi. Limitei-me
a fazer uma única e simples pergunta.
Como é que chegou a Olhão? A reposta não podia ser melhor: «Essa é uma história
muito longa. Aliás, quando a conto ninguém acredita. Quem era para vir para Olhão era o
meu irmão.» (Aqui confesso fiquei intrigado...) «O meu irmão era guarda-redes
e, como na altura o Olhanense estava em litígio com o Rodrigues, já estava tudo
preparado para ele vir para Portugal. Só que o Rodrigues chegou a acordo, e o meu irmão
já não fazia falta. Como o Olhanense precisava era de um avançado, ele aproveitou a
deixa e disse que tinha um irmão que era avançado, ao que lhe disseram então ele
que mande uma fotografia. E foi assim que fui contratado.»
Neste ponto da entrevista não disse nada e, franzindo o sobrolho, perguntei: contratado
por uma fotografia? «Sim acabei por ser contratado por fotografia. E vim de graça,
pois fotografia não tem passe.»
Abanei com a cabeça que sim, e Ademir continuou:«Cheguei a Olhão numa Quarta-feira
à noite, em que estava a chover, e o Padinha estava cheio de lama. Não fui muito bem
recebido por parte de alguns elementos da Direcção, assim como no Restaurante que na
altura servia o Olhanense, devido a uma boca que eu não gostei muito. Mas
tenho que dizer que hoje em dia essas pessoas são excelentes amigos, por quem tenho
grande consideração ainda hoje.»
Ademir nem deixou que eu formulasse a pergunta e rematou: «Quando me foram buscar ao
Aeroporto nem me deixaram tomar banho nem nada para fazer o contrato. Levaram-me para o
Padinha e eu fiz um treino cheio de raiva, entrando praticamente para a equipa titular.
Acabei por ficar no Olhanense três anos. Quando cheguei estavamos na 2ª Divisão e
subimos para a 1ª. Ficámos dois anos no escalão maior e no segundo, passámos por uma
situação bastante adversa, pois foram mais de seis meses sem receber ordenado. Tínhamos
uma equipa fabulosa, que foi abandonada por completo! Os jogadores estavam entregues a
eles próprios e, infelizmente, acabámos por descer de divisão.» Das poucas
vezes em que abri a boca nesta entrevista foi para dizer: Na altura o Presidente era... «Era,
era o Professor Guerreiro. Haviam jogadores que não tinham dinheiro nem para tabaco ou
café. Houve até uma história complicada, com o argentino Lo Bello, que ia cometendo uma
loucura por causa disso. A mulher dele estava grávida, ele não tinha dinheiro e queria
ir embora de qualquer maneira. Mas vá lá que arranjaram a passagem para ele ir embora,
pois ele estava mesmo desesperado.»
Apesar do Olhanense ter descido, o Ademir conseguiu ir para um "grande", o FC
Porto. Como deu esse "salto"?
«Foi normal, pois eu fazia bom jogos e várias equipas mostraram interesse por mim.
Clubes como o Benfica, o Vitória de Guimarães e o Sporting, mas o que me ofereceu
melhores condições foi o FC Porto. Fui para as Antas ganhar 22.500$00 por mês, o que
para a época era um ordenado razoável, mas não era nenhuma fortuna comparado ao que se
ganha hoje no futebol. Na altura dava para viver bem, mas tinha de se poupar um ano para
investir num apartamento, coisa que eles hoje compram num mês. No primeiro ano no Porto
ganhámos a Taça de Portugal, e no seguinte o Campeonato. No último jogo com o Benfica,
em que bastava um empate, foi 1-1 e eu marquei o golo.»
Depois foi para o Celta de Vigo...
«Também foi daquelas coisas que acontecem. O Celta estava interessado no Chico Gordo
que jogava no Braga, e só não foi o Chico porque no jogo seguinte foram ver o FC
Porto-Braga nas Antas, e como eu fiz um grande jogo, o treinador do Celta disse que já
não queria o 10 do Braga, mas sim o 8 do Porto. Terminado o jogo estava lá um emissário
espanhol para falar comigo, apresentando as condições. No dia seguinte estava a fazer
exames médicos na Corunha. Fiquei lá cinco anos.»
Como foi jogar em Espanha?
«É diferente. Lá há mais profissionalismo e seriedade, apesar da maioria das
situações no futebol serem iguais em qualquer parte do Mundo. Mas em termos de trabalho
a coisa lá é muito mais séria, quem não trabalha fica para trás, seja bom ou não,
senti isso na pele. Aqui não. Um jogador é bom, dá uns toquezinhos e é
perdoado por tudo, e até tem direito a descanso. Lá não! Têm de trabalhar todos de
igual modo, seja brasileiro, espanhol ou japonês, não interessa, são todos iguais. Um
exemplo disso é o Camacho, o espanhol que veio para o Benfica, nas entrevistas ele disse
logo que quem não trabalhasse não jogava.»
E como é que se deu o regresso ao Olhanense? Novamente a resposta não foi a que eu
esperava: «Eu não voltei para o Olhanense! Eu voltei a Olhão para não jogar mais,
pois abri um restaurante. Só que o falecido Victor Neves, na altura Presidente do
Olhanense e que ia almoçar todos os dias ao meu restaurante, disse-me Tu estás em
Olhão, só com 33 anos, vai lá fazer uma perninha pelo Olhanense!. Ele tanto
insistiu que eu fui. E olha joguei mais dois anos em Olhão, depois fui para o Louletano e
finalmente acabei no Imortal com 37 anos.»
Pode consultar a ficha de Ademir, com várias fotos e recortes no nosso ARQUIVO.
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O VELHO PADINHA... |
| «No
Padinha dava gosto jogar... a favor do Olhanense! Sem vedação e com o público mesmo
"em cima", isso ajudava a equipa e amedrontava os adversários. Mas também é
verdade que quando jogávamos fora, por vezes sentíamos na pele a sensação inversa.
Hoje não! É uma maravilha jogar, não há esse tipo de pressão. Hoje o jogador é
protegido pela Polícia, protegido pela Imprensa, pelo próprio Estádio... Gostava de ver
alguns craques de hoje nos campos de antigamente... E eles ainda falam em pressão?
Pressão era nos campos de há trinta anos atrás. Uma pessoa ia fazer um lançamento
lateral e era agarrado pelo pescoço por um guarda-chuva!» |
MAIS LANÇAMENTOS... |
«Tive
uma cena engraçada no Porto quando o Murça ía lançar uma bola. Ele não me a passava e
gritava: "Sai daí burro, que estás fora-de-jogo!".
O burro era eu? Como se num lançamento lateral houvesse fora de jogo...» |
A MATANÇA DO "BORREGO" |
| Como
melhor recordação dos tempos de rubro-negro, Ademir salienta a vitória sobre o Sporting
(contra quem o Olhanense perdia cronicamente): «Realmente a vitória que me deu mais
gozo foi essa, em que "matámos o borrego, em Faro. Ganhámos um a zero mas
soube a pouco. Para mim, nesse dia o Damas foi o melhor jogador em campo! O Olhanense fez
um grande jogo, e eu marquei dois livres, no topo sul do São Luís, que ainda hoje não
sei como o Damas foi buscar a bola. E ele ainda fez mais três defesas com o Renato
isolado! O Olhanense tinha uma bela equipa nesse tempo, sem dúvida nenhuma.» |
...FOI EM FARO |
Para quem
não sabe, o porquê desse famoso borrego ter sido "morto" em Faro,
isso deve-se à interdição do Padinha, devido a graves incidentes num jogo com o
Benfica. «Lembro-me perfeitamente desse jogo. Tudo começou numa cabeçada do Humberto
Coelho, a bola bateu no travessão, ressaltou, mas não entrou. O jogo continuou e só
depois o Fiscal de Linha foi dizer ao Árbitro que havia sido golo. Depois foi a confusão
com o Artur, que mostrou as partes para o público e a partir daí foi uma
desgraça. Perdemos devido a esse golo, mas aqui no Padinha dificilmente nos ganhavam. O
Benfica só ganhou com esse golo fantasma.»
Curiosamente, Ademir também esteve presente noutro jogo marcado por um golo
"fantasma". Dessa vez Ademir esteve do lado beneficiado, e referimo-nos ao
célebre Porto-Sporting (75/76) em que, devido ao nevoeiro, o árbitro assinalou golo numa
jogada em que a bola bate na malha lateral... |
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